o território criativo de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira emula um trânsito multidimensional, numa escrita nada ortodoxa, atravessada por expansões oníricas e fluxo de consciência, meticulosamente burilada, em que estão sempre presentes os paradoxos, as inquietações metafísicas do ser e o caótico sentido social e político que caracteriza a própria trajetória individual e coletiva.
Em “siameses” o autor intensifica sua aguda percepção dos cenários, temas e atmosferas, por meio de uma dicção ao mesmo tempo feérica e metafórica, povoada de flahsbacks e insights críticos, que repassa o país nas últimas décadas, espelhando as metamorfoses e o escalonamento de valores de uma sociedade e das instituições perdidas em seus próprios descaminhos ou labirintos.
Ao conduzir o leitor por um cipoal de desassossegos, o narrador deslinda um universo caleidoscópio que conforma a vida de dois personagens – Osmar e Procópio – que vão desatando, por meio de uma conversa alargada, os entretempos de suas vidas no confronto e na observação de outras tantas.
O que sobressai dessa obra, além do requinte artístico, é a possibilidade de nos reencontrarmos com a nossa própria realidade em meio ao caos contemporâneo, algo de que carece a atual produção literária nacional, muito seduzida pelos fetiches do deus mercado, cooptada pelas pautas e pelos temas reclamados pelo politicamente correto e que, na maioria das vezes, endossam autores de contexto em prejuízo de autores de (verdadeiro e pujante) texto.